domingo, 1 de maio de 2011

O espírito do capitalismo por Michael Novak


Karl Marx (1818-1883) sustentava que o capitalismo era constituído pela propriedade privada, pelas trocas privadas (ou mercados) e pelo lucro privado. No entanto, essa definição era, na verdade, uma inversão do seu sonho de socialismo: a abolição da propriedade privada, o controle estatal da distribuição por comando, e a apropriação pelo Estado de todo o lucro. No tocante ao capitalismo, Marx falhou em notar que todos os três pontos de sua definição pertenciam a quase toda a economia tradicional, ao menos nos três últimos milênios. Não levou em conta o que é novidade nesse novo sistema econômico, que quase todos os estudiosos reconheceram ter aparecido somente nos últimos três séculos – apesar, é claro, de terem aparecido pressentimentos muito antes.

Por exemplo, até mesmo no período bíblico, havia propriedade privada. De outro modo, o mandamento “Não roubarás” não faria sentido. E havia mercados muito ativos. Jerusalém na época bíblica não era nada mais, economicamente falando, do que um mercado – um mercado na interseção de três continentes. Há vários lucros privados no período bíblico. A Bíblia está cheia de estórias sobre eles, e foi dos dons advindos desses lucros que o grande e belo Templo de Salomão foi construído. Propriedade privada, mercados e lucros são marcas da economia tradicional, e não algo novo e próprio da economia capitalista.

O que é próprio do capitalismo é o dinamismo central, o foco de uma grande quantidade de instituições e práticas simples e encorajadoras. Esse dinamismo central, esse foco vívido, é a ação de um intelecto criativo e prático exercendo a virtude do empreendimento. “Empreender” (a virtude de um agente, para a qual em algumas línguas essa palavra nem mesmo existe) é o hábito intelectual de notar, de descobrir e inventar – a capacidade de ver novas possibilidades práticas antes dos outros. O que faz o capitalismo tão dinâmico é ter a sua fonte nesse hábito mental poderoso e inovador. Assim, o sistema é chamado pelo seu “caput” – no sentido do juízo, da inventividade e da descoberta.

Na Antigüidade e na Idade Média – nas eras pré-capitalistas – a riqueza advinha da propriedade de grandes estâncias, vinhedos e pomares, ou de grandes recompensas de serviços prestados ao governo (por exemplo, no caso dos generais de grandes exércitos). Durante o período capitalista, a causa da riqueza mudou da propriedade de terras para a propriedade de visões criativas: visões de produtos novos e melhores, ou de processos de produção, de distribuição ou de novos serviços nunca antes disponibilizados.

Em síntese, a realidade fundamental do capitalismo é uma realidade espiritual: frutífera e geradora de novas visões. Quando Ronald Reagan (1911-2004) se tornou presidente dos Estados Unidos, por exemplo, os computadores pessoais eram relativamente raros, bem como os telefones celulares, as técnicas de biotecnologia, a Internet e as fibras óticas. O que são hoje as maiores indústrias do mundo, em 1980 nem mesmo existiam. Imensas e novas fortunas foram construídas como fruto dessas descobertas. Isso pode ser visto no caso do relativamente jovem Bill Gates, que é uma das maiores fortunas do mundo por causa de suas invenções – suas patentes e direitos de reprodução, ou seja, sua propriedade de idéias.

A experiência mostrou que mesmo o que se pensava ser uma coisa totalmente material como o dinheiro – o vil metal – deriva o seu real valor das propriedades que pertencem mais ao espírito humano do que às meras realidades materiais. Quando as pessoas perdem a confiança em seus governos e no valor da moeda, esses valores se tornam quase sem valor. Pensemos na Alemanha durante o período da República de Weimar, quando as pessoas precisavam de carrinhos de mão de dinheiro sem valor para comprar uma bisnaga. Quem pensaria que a fé política e a confiança valiam mais do que o sólido e imundo dinheiro? Muitas vezes valiam.

Ademais, há outra maneira pela qual a introdução das economias capitalistas na história mundial, num primeiro momento de modo lento e somente em alguns lugares, revolucionou a ordem moral. Antes da introdução do capitalismo, era sábio dizer “pobres tereis sempre convosco”. A existência dos pobres, de fato, de grandes massas de pobres – na verdade, de grande maioria de pobres – ainda não era tida como imoral, mas como uma mera realidade da vida. Tal pobreza era quase universal, ampla e comumente comentada como inevitável. Ninguém pensava em mudar essa situação. Ninguém pensava nisso como um escândalo.

Mas, então, como notou Hannah Arendt (1906-1975) no maravilhoso livro “On Revolution” (Sobre a Revolução), os europeus começaram a perceber o novo experimento na América do Norte, no qual centenas de milhares de ex-pobres dentro de uma ou duas gerações estavam vivendo em casas confortáveis e próprias, desfrutando uma prosperidade sem precedentes na Europa, num novo continente onde quase todos tinham por certo o advento da pobreza. Essa possibilidade totalmente desconcertante e nova chocou a consciência da Europa e criou, como mostra Arendt, “Das Sozial Problem”, a crise de consciência de onde surgiu o socialismo e outros movimentos de grande reforma social.

Foi Adam Smith (1723-1790) quem em 1776 fez a mais importante das perguntas revolucionárias: não, se eu puder explicar, “Qual é a causa da pobreza?” (essa seria uma pergunta ociosa, se qualquer um pudesse imaginar como seria descobrir a resposta. Suponha que você descubra a causa da pobreza – ótimo! Agora você saberá como criar mais pobreza! Pergunta errada). Pelo contrário, Adam Smith fez a pergunta que René Descartes (1596-1650), Santo Tomás de Aquino (1225-1774), Aristóteles (384-322 a.C.) e todos os pensadores anteriores fizeram vista grossa – “Qual é a natureza e as causa da riqueza das nações?”. Por favor, notem: das nações e não dos indivíduos. Adam Smith estava buscando uma teoria “social”. Estava prescrevendo uma série de reformas sociais de aplicação “universal” (o oposto da polêmica socialista, os anglo-saxões não são meros individualistas, mas constantes na defesa de uma forte perspectiva social e comunitária). Ele foi o primeiro homem na história a conceber um mundo onde a pobreza seria banida, um mundo de “riqueza universal” (expressão dele), um mundo onde cada mulher, homem e criança seriam libertados da prisão da pobreza. Esse era seu objetivo. Esse é o objetivo do capitalismo. Essa é a principal fonte de moralidade do capitalismo.

Ninguém jamais sonhou com tal visão... e de uma forma prática, institucional, altamente inteligente e criativa... com um pequeno arsenal de instituições, práticas e métodos recomendáveis para a ação. A tarefa de trazer todo o mundo do subdesenvolvimento para o desenvolvimento começou com Adam Smith, a grande tarefa de tirar o peso da pobreza de cada mulher e homem dentre os pobres. Essa tem sido, até os dias de hoje, a missão universal do capitalismo.

E isso ainda tem sido posto em prática hoje. Consideremos isso: muito poucos em todo o mundo ocidental notaram o grande “milagre econômico” que vem ocorrendo no continente asiático desde 1980. Entre esses países, as economias gigantes da China e da Índia têm se voltado para métodos econômicos capitalistas – liberando o dinamismo do empreendedorismo individual, da iniciativa e da criatividade tanto entre os camponeses como nos habitantes das cidades. E, nesse processo a China e a Índia terão, dentro de vinte breves anos, tirado mais de meio bilhão de pessoas da pobreza. Nunca tantas pessoas saíram da terrível pobreza em tão pouco tempo em qualquer outro ponto do mundo – e nesse caso numa área bem ampla.

Como Jagdish Bhagwati mostrou no brilhante texto “In Defense of Globalization” (Em defesa da globalização), o enorme potencial criativo do capitalismo global pode ser melhor visto em comparação com as trajetórias da África e da Ásia no último quartel de século. Em 1970, setenta e seis por cento (76%) dos pobres do mundo estavam na Ásia, ao passo que onze por cento (11%) estavam na África. Por volta de 1998, a China e a Índia já tinham tirado tantas pessoas da pobreza que essas porcentagens quase tinham se invertido. A Ásia agora tem quinze por cento (15%) dos pobres do mundo, ao passo que a África apresenta sessenta e seis (66%). Num período relativamente breve de três décadas, a China e a Índia tiram mais meio bilhão de pessoas da pobreza.

Este é um grande trabalho de justiça social, tirar quinhentos milhões de pessoas da pobreza. Isso nos ensina uma nova lição, a criação de negócios geradores de empregos – principalmente pequenos negócios – são as instituições chave mais estratégicas na luta por justiça social no mundo hoje. A criação de negócios geradores de empregos é “a melhor – e única – esperança para os pobres”. Pequenos e grandes negócios também são a melhor esperança para a sociedade civil. Só eles geram os fundos privados que são disponibilizados para associações voluntárias que vão de encontro às necessidades dos pobres.

Os pequenos e grandes negócios também são as melhores esperanças para a democracia. Se todas essas pessoas adotarem a democracia, essa é a oportunidade de votar a cada dois ou quatro anos, ao passo que nenhum melhoramento irá acontecer nas condições econômicas, se eles não amarem a democracia. O que as pessoas mais amam na democracia é a oportunidade econômica e a prosperidade que a economia livre traz para elas. É o “capitalismo” democrático que elas amam, e não meramente a democracia.

Finalmente, o capitalismo instila em populações tradicionais uma nova, e em alguns aspectos, uma moral pessoal mais elevada. Ele exige contas transparentes e honestas. Insiste no Estado de Direito e na estrita observância dos contratos. Ensina a trabalhar duro, estimula a inventividade, a iniciativa e o espírito de responsabilidade. Ensina a paciência com pequenos ganhos, e favorece o aumento com avanços constantes e estáveis. Durante o século XIX, a Grã-Bretanha alcançou uma média de crescimento de 1,5% do PIB por ano, com o feliz resultado da renda média do trabalhador comum inglês quadruplicar num único século. Os hábitos morais da invenção, da descoberta, do trabalho árduo, da persistência, da poupança, do investimento e da seriedade moral trouxeram a única grande transformação na condição dos pobres em todos os tempos – os maiores avanços na higiene, na medicina, na longevidade e no bem-estar físico em toda a história.

O capitalismo traz consigo uma imensa transformação, e a raiz dessa transformação é moral. Aquelas pessoas e nações que negligenciam a ecologia moral de suas próprias culturas não aproveitarão os frutos de tais transformações – ou, tendo-os provado, irão recair num rápido declínio. O capitalismo é um sistema moralmente exigente. Ele deve ser moral, ou irá titubear, cair e falhar.

Tradução de Márcia Xavier de Brito
Publicado em 01 de agosto de 2006


Fonte: http://www.cieep.org.br/index.php?page=artigossemana&codigo=492

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