quarta-feira, 27 de maio de 2009

TRABALHO E DOMÍNIO por Rousas John Rushdoony

É um erro sério, mas comum considerar que o trabalho é um aspecto da maldição. A justificação para essa crença é procurada em Gênesis 3.17-19. Contudo, fica claro nessa passagem que é Adão quem está debaixo da maldição, juntamente com Eva. Porque ambos estão debaixo da maldição de Deus por desobediência, cada aspecto de sua vida reflete essa maldição. Dessa forma, as duas grandes alegrias de Eva deveriam ser, como para todas as mulheres, primeiro, seu deleite na proteção, cuidado e senhorio do seu marido, e, segundo, os filhos. Mas essas duas tornaram-se uma fonte de tristeza e perturbação pelo fato do pecado. Adão foi similarmente amaldiçoado; o trabalho e o domínio era o seu chamado, alegria e privilégio. Agora isso tornou-se repleto de frustração e desapontamento. Dessa forma, foram o labor ou chamado do homem e mulher que, por causa do pecado, os frustrou. Esse trabalho e serviço que deveria ser a alegria e privilégio deles, tornou-se em vez disso um desapontamento e tristeza para eles.

O trabalho era central para a criação e natureza do homem. “E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar “(Gn 2.15). A versão Berkeley traduz essa tarefa como “… o cultivar e cuidar” e Moffatt como “… o arar e guardar”. Essa tarefa está inescapavelmente vinculada ao mandato da criação para sujeitar a terra e exercer domínio sobre ela (Gn 1.16, 28). O propósito da criação é estabelecer o homem em seu domínio sob Deus.

O trabalho do homem tem vários aspectos. Primeiro, lavrar a terra é um aspecto do chamado do homem; isso significa sujeitar e desenvolver a terra e trazê-la sob o domínio e serviço do homem. Isso tem implicações amplas. Inclui todo labor manual, agricultura e ciência. O homem exerce seu domínio sobre o mundo sob Deus. Assim como o homem não pode tirar a vida à parte da lei de Deus, visto que Deus somente é o Senhor da vida, assim o homem não pode usar a terra à parte da lei de Deus. Ele deve ser um despenseiro fiel, não um ladrão ou assassino.

Segundo, em Gênesis 2.19 Adão tem um chamado para nomear ou chamar os animais, isto é, entender e classificar a criação ao redor dele. Essa é claramente uma tarefa científica, pelo fato de requerer um entendimento da natureza e classificação das coisas. É uma tarefa religiosa também, visto que o homem deve ver sua relação com a criação animal, seu lugar dado por Deus, e a diferença entre o homem e os animais. Os animais devem ser vistos em relação ao homem, e em relação a Deus e os seus propósitos.

Terceiro, o homem recebeu sua ajudadora apenas após ter sido provado em seu trabalho. Dessa forma, Adão foi considerado pronto para o casamento, não quando estava fisicamente maduro, mas quando teve uma maturidade testada em termos de seu trabalho. Esse conceito foi refletido nos requerimentos hebraicos e mais tarde judeus que o ofício público estava restrito a homens casados que já tinham sido provados pelo trabalho e então pelo casamento. Isso aparece também no requerimento do Novo Testamento que os presbíteros devem ser homens casados (1Tm 3.1-5; 4.3).

Quarto, como temos visto, o trabalho não foi apenas ordenado antes da queda, mas é o chamado do povo de Deus na criação restaurada (Ap 22.3).

A queda significa que o homem, ao invés de exercer domínio sobre a terra, retorna à terra em frustração e morte e torna-se ele mesmo pó ou terra (Gn 3.19). Tendo buscado ser deus por sua rebelião (Gn 3.5), o homem torna-se novamente pó, retornando à terra que ele deveria ter governado sob Deus.

O trabalho em si mesmo não é necessariamente de qualquer significância; o trabalho pode algumas vezes ser usado para degradar e destruir o homem ao invés de promover o seu domínio. Dostoyevsky descreve o efeito devastador do trabalho sem significado; prisioneiros podem ser desmoralizados e humilhados ao exigir-se que eles façam algumas tarefas fúteis, tais como carregar rochas de um amontado até outro, e então carregá-las de volta. O trabalho sem sentido é, dessa forma, alheio e totalmente diferente ao propósito de labor sob Deus.

O trabalho sem sentido não ganha valor por ser um trabalho bem pago. Quando alguns dos mais bem remunerados escritores soviéticos fugiram para a Inglaterra, eles deixaram uma situação de eminência, prestígio e conforto por uma de relativa obscuridade. A recompensa material não podia compensar uma posição desonesta e sem significado, uma aquiescência forçada a um regime odioso. Não há nenhum sentido de domínio em tal trabalho.

Básico para o verdadeiro trabalho é que ele deve promover o chamado do homem para exercer domínio sob Deus. Um homem deve se sentir mais homem por causa do seu trabalho; mais seguro em seu status como cabeça de uma família, um membro da sociedade, e um homem diante de Deus. O trabalho que é estéril em sua relação com o chamado do homem para exercer domínio reduzirá grandemente o homem à impotência de várias formas.

A separação do trabalho do domínio é catastrófico para o homem e a sociedade. Isso leva à doença espiritual do homem e ao declínio de sua cultura. Pode levar, em algumas culturas, à brutalização do homem. À medida que o homem é degradado por seu pecado e sua sociedade pecadora num escravo do trabalho, cujo trabalho é mais cativeiro do que libertação, o homem responde agravando o seu pecado. A resposta do homem ao homem torna-se uma forma de motivos mútuos para degradar e desonrar a outra pessoa.

Em outras ocasiões, a separação do trabalho do domínio leva a uma paralisia moral e religiosa. O homem se torna uma alma doente, de quem todas as respostas é colorida pelo ódio doente de impotência e seu desejo de destruir. Dessa forma, Sartre, em sua peça Le Diable et le bon Dieu, definiu amor como o “ódio do mesmo inimigo”.[1] Tal homem fala muito de amor e futuro, mas seu amor é ódio, e seu futuro é tentativa de destruir o passado.

A separação de trabalho e domínio é inevitável numa sociedade que nega o Deus trino. Tendo negado o seu Deus, tal sociedade tem seu trabalho amaldiçoado e seu desejo de domínio frustrado. Em vez de domínio, ela busca expressão na destruição; em vez de promover a vida, encontra poder na morte.

O exercício de domínio sob Deus é o desenvolvimento do homem e da terra por meio do trabalho para fortalecer, prosperar e elevar a vida e serviço do homem sob Deus. O verdadeiro trabalho e domínio promove a vida e as potencialidades da vida. Material e espiritualmente, a vida do homem é melhorada.

Sempre que o homem busca domínio fora de Deus e sob a maldição, seu trabalho produz morte e destruição. O homem sob maldição trabalha para destruir outros homens e sociedades, e ele mesmo. Ele trabalha destrutivamente também em seu relacionamento com a terra. Uma era que fala muito sobre ecologia é a maior poluidora da terra, e aqueles mais culpados pela poluição falam em alta voz sobre acabar com a poluição, restringir o crescimento da população e financiar tais esforços.[2] De acordo com Burden, “na cidade de Nova Iorque, por exemplo, a despeito da preocupação evidente de John Lindsay e os cartazes nas ruas, a própria cidade continua a ser o pior ofensor contra suas próprias leis de poluição”.[3]

Dessa forma, o trabalho sem Deus é sem domínio e para a destruição. O trabalho sob Deus estabelece o homem em seu domínio ordenado e fornece energia social construtiva. Não é surpresa que a palavra energia venha da palavra grega ergon, a qual significa trabalho. A palavra para domínio no grego é kratus, força, fortaleza, poder, e vem da raiz kra, aperfeiçoar, completar. Criador é provavelmente uma palavra relacionada. Criar vem do latim creatus, creare, criar, e está relacionada ao armênio serem, produzir.[4] O propósito e significado do domínio é produzir o significado e a potencialidade do homem, sua sociedade, e da terra, e completar ou aperfeiçoar os propósitos da criação ordenados por Deus.

Uma sociedade que busca, embora em vão, eliminar o trabalho criando um mundo livre de trabalho, nem escapa da maldição nem ganha qualquer domínio por seus esforços. Em vez disso, tal atitude intensificará a desintegração do homem, pois, embora o trabalho não seja a salvação do homem, o homem cessa de ser homem se separado do trabalho. Não é surpreendente que os homens geralmente morram uns poucos anos após a aposentadoria, não importa a idade com qual se aposentem. Mesmo homens caídos, não importa quanto se irritem com a maldição que molesta seus esforços e trabalho, ainda se preocupam em realizar sua masculinidade e domínio através do trabalho. Separar homens do trabalho é separá-los do significado e da vida. A vida do homem não é definida pela diversão, mas pelo trabalho e domínio. Quando o homem sente que o seu trabalho é fútil, aí a desintegração do homem se torna manifesta.

O homem, contudo, não pode ser definido por sua função; dessa forma, ele não pode ser definido como um animal trabalhador. O trabalho é a função do homem, mas o próprio homem é uma criatura criada à imagem de Deus e, portanto, bem mais que sua função. Um aspecto central dessa imagem é o domínio. O trabalho é o meio pelo qual o homem manifesta, estabelece e desenvolve seu domínio sob Deus. Uma sociedade livre do trabalho será finalmente uma sociedade livre do homem.

A antiga associação Puritana e cristã de trabalho com a natureza do homem ainda sobrevive na América. Um visitante da Inglaterra descreve com certa irritação “o padrão de cantada inicial” dos homens americanos, quer num bar ou festa, ao encontrar desconhecidas; após as introduções serem feitas e um drinque tomado, a conversação real começa com a pergunta: “E o que você faz?”.[5] Ao responder essa pergunta, a estranha é identificada; o trabalho é visto como uma chave para conhecer uma pessoa e classificá-la. A pergunta revela tanto a saúde remanescente da vida americana bem como uma medida de declínio. Numa era antiga, a pergunta acompanhante teria averiguado no que o homem acreditava, isto é, por sua fé e trabalho, ele seria identificado.



NOTAS:



[1] - Citado por Thomas Molnar: Sartre: Ideologue of Our Time, p. 12. New York: Funk & Wagnalls, 1968,

[2] - Veja James Ridgeway: The Politics of Ecology. New York: E. P. Dutton, 1970.

[3] - Curter Burden, “The Economics of Pollution”, Town and Country, vol. 125, no. 4578, Janeiro, 1971, p. 19.

[4] - W. E. Vine: An Expository Dictionary of New Testament Words, p. 332. Westwood, New Jersey: Fleming H. Revell, 1940, 1966.

[5] - Nancy Hawks, “Those Swinging Singles”, em Norman Hill, editor: Free Sex: A Delusion, p. 69. New York: Popular Library, 1971.

Fonte: Revolt Against Maturity, Rousas John Rushdoony, p. 17-21.
24 de maio de 2009

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto, Publicado em 25 de maio de 2009 – 0:44

quarta-feira, 20 de maio de 2009

SUSPEITA DE DEFLAÇÃO: A QUEDA DOS PREÇOS PREJUDICARÁ A RECUPERAÇÃO DA ECONOMIA?

No momento em que os computadores e os aparelhos de TV de tela plana ficarem mais baratos, muita gente vai gostar. Mas a deflação real — ou o declínio generalizado dos preços e da renda — não é nada bom. Ela foi um dos horrores da Grande Depressão.

O termo vem aparecendo na mídia nesta primavera, à medida que os economistas vislumbram tendências deflacionárias nos EUA, em grande parte da Europa e em algumas regiões da Ásia. Será que vem deflação por aí? Se vier, será coisa séria? Os especialistas estão longe de um consenso em relação à primeira questão. Alguns dizem que a deflação poderá ser generalizada, enquanto outros insistem que a retomada da economia e os esforços do governo para estimular o meio econômico tornam a ocorrência de deflação menos provável.

Entre os que acreditam que já estamos em deflação, ou que estaremos em breve, poucos acreditam que se trate de um evento grave. Muitos admitem que suas previsões podem estar equivocadas, chamando a atenção para as enormes incertezas que caracterizam o cenário econômico atual. Outros se dizem menos preocupados com a deflação e mais com o seu oposto: um possível surto inflacionário. “Acho que vamos conseguir evitar a deflação”, diz Jeremy J. Siegel, professor de finanças da Wharton, ressaltando que a queda livre dos preços do petróleo e de outras commodities no ano passado chegou ao fim.

Relatórios recentes mostraram que os salários estão estáveis nos EUA, eliminando dessa forma uma das forças responsáveis pela deflação, acrescenta Howard Pack, professor de negócios e de políticas públicas da Wharton.

Japão, EUA e EUA registraram leve queda nos preços de bens de consumo recentemente. Contudo, trata-se de quedas de menos de 1%, ante cerca de 25% nos EUA durante os anos da Grande Depressão de 1929-1933. Em 11 de maio, a China registrou queda de 1,5% no IPC (índice de Preços ao Consumidor) de abril. Foi o terceiro mês consecutivo de quedas nos preços ao consumidor, enquanto os preços no atacado caíram 6,5%. Todavia, a maior parte dos economistas não se deixa impressionar pelas quedas de preços informadas recentemente. Eles chamam a atenção para outros sinais da mudança de curso da economia. Muitos observam que essas quedas são esperadas, porque os números do ano anterior refletiam o custo elevado do petróleo e dos alimentos.

“A economia está começando a reagir”, diz Marshall E. Blume, professor de finanças da Wharton, que cita o ritmo mais lento dos pedidos de seguro-desemprego como prova de que a deflação não é ameaça séria. A queda recente do PIB se deveu, principalmente, a um corte na produção, na medida em que os fornecedores recorriam a seus estoques, e não a novos produtos, diz. Com os estoques em baixa, a demanda deverá elevar novamente os preços.

Outros acham que poderemos ter deflação. “Eu ficaria muito surpreso se não houvesse deflação no Japão”, diz Franklin Allen, professor de finanças e de economia da Wharton. “Creio também que é bastante provável que tenhamos deflação na Europa e nos EUA”, acrescentou chamando a atenção para o rápido declínio da inflação. Allen interpreta o declínio do PIB como sinal de que os fabricantes estão trabalhando com um “excesso de capacidade muito grande”, que se equipara a um excesso de oferta e que pode ajudar a baixar os preços.

Somados à queda da demanda devido ao desemprego crescente, esses fatores poderiam tornar a deflação um problema sério nos EUA e na Europa, diz Allen.

Mauro F. Guillén, professor de administração internacional da Wharton, acredita que a deflação deva se generalizar, mas não acredita que será séria. A maior parte da queda dos preços foi tênue, diz, e os níveis elevados dos gastos do governo nos EUA e em outras regiões deverão, por fim, criar um nível de demanda tal que fará os preços subirem.

De acordo com alguns levantamentos feitos, os economistas esperam que os índices de preços ao consumidor caiam nos próximos meses em termos anuais nos EUA, Reino Unido, na zona do euro e Japão. Contudo, num discurso proferido em 11 de maio, Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, disse que a ameaça de deflação está recuando, embora ainda seja necessário vigilância, acrescentou.

O ciclo vicioso

Queda de preços pode ser uma coisa boa — até certo ponto. Quando, porém, os preços caem de forma generalizada, empresas e consumidores adiam as compras à espera de que caiam ainda mais; pode acontecer também que o façam por receio de que sua renda caia, ou então preferem não adquirir ativos que possam se desvalorizar. O recuo da demanda obriga os vendedores a cortar ainda mais os preços, desencadeando um ciclo vicioso. “O ciclo se alimenta de si mesmo e é muito difícil parar depois que começa”, diz Pack.

A deflação é devastadora principalmente para os tomadores, uma vez que sua renda corre o risco de encolher, ao passo que suas dívidas, não. O colapso dos preços dos imóveis residenciais é um bom exemplo. A queda generalizada dos preços deixou milhões de donos de imóveis com dívidas superiores ao valor de suas casas. Impossibilitados de vendê-las por um preço que lhes permitisse pagar suas dívidas, esses desempregados não têm como se mudar para conseguir outro emprego.

Embora a deflação tenha sido devastadora na época da Grande Depressão, tornando-se um problema sério para o Japão nos anos 90, Pack diz que a ameaça aos EUA e a outras economias desenvolvidas diminuiu, já que as fábricas e a agricultura têm um papel menor atualmente na economia em relação ao passado. “As fábricas respondem por um percentual relativamente pequeno de gastos nos EUA atualmente”, diz Pack. A economia hoje é dominada pela indústria de serviços, e os salários constituem sua maior despesa, acrescenta, e explica que é mais difícil para os empregadores cortar salários do que para as fábricas cortar preços.

Blume acrescenta que uma das causas da Depressão foi a má administração do padrão ouro, que fixava o valor das moedas. O padrão ouro foi abandonado há muito tempo. Outros especialistas dizem que o estímulo dado pelo governo deverá manter a deflação sob controle. Bernanke, dizem, estudou a Depressão exaustivamente quando dava aulas, e parece disposto a fazer o que for preciso para manter a deflação acuada.

Vários especialistas entrevistados citaram a inflação como sua maior preocupação, uma vez que o estímulo financeiro dado pelo governo permite aos consumidores e às empresas fomentarem a elevação dos preços dos produtos.

Embora o Fed tenha deixado claro que está disposto a reverter sua política monetária no momento em que as condições o permitirem, a realidade política pode interferir se o combate à inflação exigir taxas de juros mais elevadas, diz Richard J. Herring, professor de finanças da Wharton. “Na hora de apertar de novo, o desemprego certamente estará em ascensão novamente”, diz ele. “Se o Fed decidir apertar quando achar mais oportuno, encontrará pela frente uma resistência feroz do Congresso e dos tomadores de empréstimos.

O pior cenário seria uma repetição da política de taxas baixas que se estendeu por muito tempo nos primeiros anos da década, quando os EUA se recuperavam do estouro da bolha de tecnologia. A “assimetria política” — isto é, a preferência política por taxas baixas em detrimento de taxas elevadas — “explica, em parte, a confusão em que nos metemos”.

O melhor cenário, de acordo com Guillén, consiste em taxas baixas de inflação, e não em taxa nenhuma. “A taxa ideal seria aquela que fosse consistente com o crescimento econômico sustentável”, diz Guillén. O nível ideal de inflação depende da taxa de crescimento da economia. Uma faixa de 3% a 5% é geralmente considerada saudável, diz. “Para crescer, você precisa saber quais são os novos serviços ou produtos mais demandados — e um sintoma de demanda elevada é a elevação dos preços.” Esse mecanismo ajuda a economia a distribuir seu capital de modo mais eficiente, na medida em que produtos e serviços com preços em elevação afastam os investimentos em dólares dos produtos e serviços cujos preços estão em queda, diz.

Até certo ponto, consumidores e empresas se beneficiam do aumento dos preços dos ativos. Os donos de imóveis residenciais, por exemplo, podem recorrer a empréstimos baseados no valor já pago por suas casas. “Isso estimula o consumo e contribui para o crescimento da economia”, diz Guillén. É claro que pode haver exageros, diz. A bolha imobiliária de alguns anos atrás deu aos donos de imóveis muito dinheiro para gastar, mas depois voltou para assombrá-los quando estourou. “A inflação dos preços dos ativos é tolerável, mas se virar bolha, haverá um momento em que será preciso prestar contas, e é isso exatamente o que está acontecendo agora.”

O governo federal vem combatendo as tendências inflacionárias mantendo baixas as taxas de inflação e despejando dinheiro na economia para encorajar o consumidor e as empresas a gastarem. Embora Guillén acredite que isso possa funcionar, é difícil conseguir uma reviravolta muito rápida.

Situação: “esquisita”

“Neste momento, a curto prazo, a situação é muito esquisita”, disse Guillén salientando que indivíduos e empresas preferem usar o dinheiro extra para pagar dívidas, em vez de gastá-lo. Preocupados com o risco oferecido por possíveis tomadores, os bancos vêm estocando o dinheiro do socorro dado pelo governo, em vez de emprestá-lo, conforme queria governo. “Se você não empresta — se os bancos insistem em guardar o dinheiro — não há geração de demanda.”

Para o Federal Reserve, o ajuste das taxas de juros “é um exercício extremamente difícil”, diz Guillén, já que facilitar o acesso ao dinheiro pode fazer eclodir a inflação. Nesse caso, o Fed provavelmente elevaria as taxas de juros, embora ao elevá-las demais acabe fechando a torneira de dinheiro de que a economia precisa para crescer.

“Não gostamos da situação atual, que é de deflação associada à recessão”, diz Guillén. “Gostaríamos de transformar a recessão em crescimento econômico, e a deflação em inflação suave capaz de suportar o crescimento econômico.”

Preocupado com a deflação depois do estouro da bolha de tecnologia no início da década, o Fed manteve as taxas de juros em patamares baixos em 2003, 2004 e 2005, lembra Richard Marston, professor de finanças e de economia da Wharton. Marston diz que essa foi uma reação extrema baseada na crença equivocada de que a desaceleração econômica estaria empurrando os preços para baixo numa trajetória deflacionária típica, enquanto a causa real eram as importações baratas de países como a China.

A permanência das taxas em níveis baixos por um tempo longo demais alimentou o boom da moradia, o que resultou na crise financeira, diz Marston. Agora, os esforços do governo para despejar dinheiro na economia deveriam preparar o cenário para a recuperação, diz ele, acrescentando que qualquer período de deflação será bastante moderado.

“Creio que o consumidor é quem vai nos tirar da recessão”, diz Marston. “A maior parte das famílias americanas cortou gastos, mas ninguém fez isso porque sua renda havia caído”, diz ele, explicando que a redução de gastos se deveu, antes, ao receio do consumidor em relação ao futuro.

Os que têm bons níveis de renda vão começar a abrir a carteira na hora em que perceberem sinais de recuperação na economia, o que já vem acontecendo, acredita Marston. “As pessoas vão começar a freqüentar novamente os restaurantes, começarão a comprar carros outra vez [...] Tenho uma perspectiva muito otimista a esse respeito.”

Publicado em: 20/05/2009
http://www.wharton.universia.net/index.cfm?fa=viewArticle&id=1714&language=portuguese

domingo, 3 de maio de 2009

A MÁQUINA DE GUERRA COMERCIAL CHINESA

Klauber Cristofen Pire

Em um dos filmes da trilogia “De Volta Para o Futuro”, o cientista protagonista ironiza sobre uma peça defeituosa de sua máquina do tempo, alegando ser a causa o fato de ter sido construída... no Japão! Como um sujeito “coroa” e desatualizado, certamente se referia ao tempo em que a ilha, num processo inicial de industrialização, produzia bens de qualidade duvidosa. A graça da ironia, claro, estava situada em um contexto em que a boa qualidade dos produtos japoneses já era mundialmente reconhecida.

Tal fenômeno também se repetiu com várias nações, inclusive o Brasil, em que o processo de melhoria da qualidade dos produtos ainda se encontra em um estágio de transição, e especialmente nos demais países conhecidos como “tigres asiáticos”, quando o capitalismo e a industrialização por lá se instalaram, mais propriamente de uma forma planejada pelo estado do que propriamente segundo uma evolução espontânea e natural do mercado: Formosa (Taiwan), Malásia, Tailândia, Cingapura, Indonésia e outros menores. Tenho que a exceção foi a Coréia do Sul, que sempre se esmerou desde o início por oferecer produtos de boa qualidade, em que pese utilizar-se prioritariamente de tecnologia de segunda mão, geralmente japonesa (não há nada de errado nisto, frise-se).

A grande questão que se levanta nos nossos dias, portanto é que, chegada a vez da China, e tendo já consolidado o seu parque industrial, seus produtos ainda continuem a ser tão exemplarmente ruins quanto sempre o foram!

Alguns exemplos, colhidos da minha própria vivência, podem ilustrar muito bem o que afirmo:

Primeiro, lembro-me de uma arandela, adquirida anos atrás – era bonita, dobrável e possuía uma lâmpada eletrônica, uma novidade para o fim dos anos 90 – pois este aparelho, quando de seu début, começou a exalar uma gás inodoro, possivelmente decorrente do aquecimento da lâmpada sobre o plástico – que me causou, durante a leitura de um livro, uma inflamação nos olhos que perdurou por mais de uma semana!

Em outra oportunidade, adquiri para a minha esposa um secador de cabelo numa loja de importados em Manaus, também bonitinho e bivolt. Muito prático, a não ser pelo fato de que, após uns poucos minutos de uso, dava pane e minha esposa só conseguia “reanimá-lo” após algum tempo de resfriamento na frente de um ventilador...

Comprei ainda outro secador, em uma loja de departamentos nacional (sem saber que era chinês) e o danado produzia um som altamente estridente, possivelmente irregular para os órgãos certificadores, e ao fim de uns poucos meses, restou queimado.

Recentemente, uma certa coceira acometia-se em minha mão, quando percebi que a causa era o cabo do guarda-chuva que eu carregava. Ocorre que o seu cabo era composto de um plástico cuja camada superficial, já desgastada pelo uso, expunha seu interior, no qual era possível observar a presença de partículas metálicas. Possivelmente se tratava de um plástico reciclado sem o menor cuidado com a toxidade. Ainda no ano passado, em palestra havida em Curitiba para os servidores da Receita Federal do Brasil por associações de fabricantes nacionais , fomos informados de que até mesmo bonecas de brinquedo eram construídas com material reciclado – pasme - com material de lixo hospitalar!

Por que será que tem ocorrido assim? Certamente que o baixo preço das quinquilharias chinesas, tornado possível graças a salários miseráveis ou ao uso de mão de obra de presidiários, tornam-nas atrativas para o povão, mas esta estratégia não haveria de persistir bem-sucedida quando a maior parte dos consumidores começasse a rejeitar estes produtos.

Uma tentativa de explicar este sucesso pode ser aventada – e investigada por quem tenha maiores recursos e interesse para tal – quando atentarmos para o que chamo de “técnica de exportação dos importadores”. De fato, com relação aos demais países que entre si praticam comércio, a exposição de produtos uns com os outros se dá de forma tradicional, por meio da qual os importadores se interessam e celebram os seus negócios. Com os produtos chineses, todavia, é larga a ocorrência justamente de chineses entre os principais importadores. Isto me leva à seguinte teoria: A China exporta, por meio da emigração, cidadãos chineses; este, por sua vez, são capitalizados e promovem diretamente as importações para revenda no mercado interno dos países em que atuam.

A China desconhece direitos trabalhistas, direitos de propriedade, de marcas e patentes, especificações sanitárias e toxicológicas adequadas, cuidados ambientais, e seus produtos não raro estão no mercado nacional por conta do descaminho fiscal. Tudo isto acontece em um cenário em que estas exigências, nos países democráticos, são exorbitadas às raias do bizarro, inviabilizando os empreendedores honestos por meio da criminalização intencional de suas atividades.

Nos anos 90, uma prática protecionista européia, batizada como ISO 9000, pretendia, mediante alegações de proteção à qualidade, restringir o ingresso dos produtos e serviços de países emergentes, mais baratos e competitivos e às vezes, até mesmo, melhores. A esta forma de protecionismo velado, denominado de “não-alfandegário”, por não se utilizar diretamente de empecilhos tais como a incidência de tributos ou imposição de cotas de importação, mas largamente utilizada pelos governos dos países como uma saída não oficial para a prática do protecionismo, as empresas brasileiras conseguiram responder com o atendimento das exigências regulamentares ditadas pela ISO (International Organization for Standardization), o que, às vezes, até mesmo incluiu a necessária melhoria da qualidade dos seus produtos, de modo que, em poucos anos, praticamente todas as empresas voltadas ao comércio exterior conseguiram seus certificados de qualidade total.

Todavia, hoje enxerga-se uma guerra comercial de nível muito mais avançado, no tanto em que os países civilizados - inclupidos aí o Brasil - têm o seu parque industrial praticamente impedido de prosperar - e até mesmo sujeito a se deprimir, por conta do movimento do aquecimento global e do chamado “mercado de carbono”, enquanto as indústrias chinesas produzem livre de qualquer constrangimento toda sorte de porcarias sem o mínimo controle e impedimento por parte das nações onde ainda predominam práticas leais de comércio.

Tenho muita preocupação, principalmente, com a entrada de alimentos e produtos de higiene, que já pude constatar, tal como pirulitos, clicletes e batatas-fritas e saboenetes, pastas dentais, batons e perfumes. Rogo a todos os pais que tenham a máxima atenção com isto, verificando a origem nas embalagens. Vocês e seus filhos podem estar correndo perigo.

Fonte: www.libertatum.blogspot.com

Divulgação: www.juliosevero.com