quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

COMO A VISÃO DE RUSHDOONY SOBRE ECONOMIA PODERIA MUDAR O MUNDO

Por Ian Hodge - Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1

“Nós despersonalizamos o mundo; achamos mais fácil tratar as pessoas impessoalmente. Falamos de problemas de ‘trabalho’ e problemas de ‘gerenciamento’, quando deveríamos falar sobre pessoas criadas à imagem de Deus. Fazê-lo, isto é, vê-los como pessoas, dá uma dimensão religiosa à situação, não uma dimensão científica. Isso requer de nós ver a economia a partir de uma perspectiva bíblica, e ver tudo da vida como Deus requer que vejamos. Temos desvalorizado a vida e as pessoas, e precisamos novamente ver todas as coisas em termos do Senhor e Sua lei-palavra” (“Our Business World,” Journal of Christian Reconstruction, Symposium on Christianity and Business, Vol.10, No.2, 67.)


Que tipo de mundo econômico a Bíblia criaria? Essa é uma pergunta que vem à mente quando você lê os escritos de R. J. Rushdoony. É evidente que seu chamado para voltar à toda a Bíblia teria um impacto grande sobre a economia e o comércio. Mas que tipo de impacto?

Considere a visão de Rush sobre dinheiro e inflação, expresso em seu livro Larceny in the Heart [Rapinagem no Coração]. Isso realmente vai direto ao cerne da questão: a atitude do homem para com o dinheiro. Fora de Cristo, somos governados pela rapinagem, argumenta Rushdoony, não pela ética bíblica. Ora, rapinagem é uma palavra que foi tirada do vocabulário popular, mas significa essencialmente “o ato de tomar e carregar ilegalmente uma propriedade pessoal, com o intuito de privar permanentemente dela o seu dono legal”.

Na visão de Rushdoony, a ilegalidade dela não é em termos da lei do homem, que na verdade encoraja a rapinagem, mas em termos da lei de Deus, que a proíbe. Você poderia pensar que essa não é uma descrição que se encaixe pessoalmente a você. Mas o contexto de Rushdoony para esse comentário é o dinheiro, e dinheiro envolve as questões de inflação e dívida. Ora, nada descreve melhor nossa economia Ocidental moderna que a palavra dívida, e não podemos entender os altos níveis de dívida até que apreciemos como a dívida é o veículo principal da expansão monetária, inflação.
Inflação, contudo, é um meio pelo qual a riqueza é tirada de um grupo e dada a outro. As vítimas da inflação não têm uma escolha nessa questão.

Elas perdem o valor do seu dinheiro à medida que ele é transferido, no processo inflacionário, a outros. Rushdoony está certo. Isso é rapinagem. Considere comprar uma casa hoje num financiamento de 25 anos. Se a casa custa R$ 300.000, no final você acabará pagando no mínimo duas vezes esse valor. Agora é tempo de vender a casa, e qual o preço que você pedirá?

Você pedirá dinheiro suficiente para cobrir o preço de compra mais os juros. Em outras palavras, você agora espera que o preço das casas aumente para você não perder dinheiro. Mas o preço aumenta mais pela inflação monetária (i.e., expansão de crédito) do que por vários outros fatores em muitos casos. É fácil se tornar complacente nesse assunto. É fácil não se importar sobre como o próximo comprador conseguirá o dinheiro para comprar a casa.

Se ele tiver que pegar um financiamento maior e mais longo, que seja. O problema é dele! Todavia, esse é um problema nosso também, pois criamos para nós mesmos um interesse pessoal na expansão de crédito, para que não percamos dinheiro da compra da nossa casa. E isso, diz Rushdoony, é ter um interesse pessoal e financeiro na continuação da inflação.

Se você entende o ponto, entenda quão radical é o pensamento econômico de R. J. Rushdoony em seu chamado de volta à Bíblia. Com o que o mundo econômico se pareceria se Rushdoony fosse ouvido e todos vivessem pela lei de Deus? Considere apenas dois apectos-chave do Antigo Testamento, o princípio do Sabbath e Levítico 19:13b:“Não
retenham até a manhã do dia seguinte o pagamento de um diarista”(NVI).

Pense sobre as implicações práticas desse versículo. Os empregadores deveriam pagar os seus empregados diariamente. Em contraste, o sistema atual permite que os empregadores acumulem o salário devido aos seus trabalhadores, e o acúmulo pode continuar por uma, duas semanas, ou mesmo um mês.

Mas esse versículo está limitado aos empregados? O princípio não deveria se aplicar também a todos aqueles bens e serviços que usamos? Agora tocamos noutro ponto polêmico no negócio mundial: contas a pagar. Quantos empresários usam o dinheiro de seus fornecedores pagando em quarenta e cinco, sessenta, noventa e mesmo 120 dias? Somente quando a ameaça de cobrança torna-se real é que os donos pagam.

Mas no mundo moderno, é quase uma virtude estender as contas a pagar o tanto quanto possível, enquanto insistindo que as contas a receber devem ser pagas no prazo. Não é o caso de padrões duplos? Penso que sim. Mas aqui vemos que a dívida é uma forma de vida. É tão “normal” para nós viver assim, que lemos a Bíblia, e especialmente o Antigo Testamento, como alguma relíquia arcaica que não poderia ter sido destinada ao mundo moderno. Na verdade, é fácil ver que o mundo moderno como o conhecemos
não existiria se as pessoas no passado tivessem vivido pela Bíblia.

Assim, pagamos nossas contas quando nos convém, e não quando somos moralmente obrigados a fazê-lo. Conseguindo que os empregados adiem pegar o seu salário por uns poucos dias, os empresários usam esse dinheiro para outros propósitos. E então queremos saber o porquê tantos empregados se prejudicam financeiramente quando seu empregador termina em falência.

Finalmente, considere as leis sabáticas. Entre muitos cristãos o princípio do dia de Sabbath é mantido. Mas não estou tão interessado aqui no dia de Sabbath como estou no ano de Sabbath. Ele é ensinado em Levítico 25:1-7. Nessa passagem, a instrução para o ano de Sabbath é descanso. A terra deveria descansar por um ano a cada sete anos, com a promessa de Deus que a produtividade nos seis anos sustentaria os israelitas durante o sétimo ano. Precisaria sustentá-los mais um pouco, visto que o oitavo ano iniciaria outro círculo de colheita que não seria ceifada até mais adiante naquele ano, ou mesmo no ano seguinte.

O conceito do ano de Sabbath, contudo, é expandido em Deuteronômio 15:1-18 com o conceito de libertação. Essas suas idéias, descanso e libertação, pintam a figura de como Deus pretendia que fosse o ano do Sabbath: um ano de descanso para a terra e seus trabalhadores, e um ano de libertação da dívida.

Observe, contudo, que a passagem em Deuteronômio não é uma instrução para que os mutuários livrem-se da dívida no final de seis anos. É uma instrução para rendatários que eles devem libertá-los de todas as obrigações de dívida naquele ano. E, adicionalmente, eles não deveriam nem mesmo endurecer o seu coração contra o muturário simplesmente porque o ano de libertação estava chegando.

Interessantemente, o conceito do ano sabático ainda tem seus remanesentes nas universidades do mundo, onde o professor tem o seu ano sabático. No caso de meus amigos professores na Austrália, isso ainda está em pleno exercício!

Mas é facil ver como o conceito sabático, se aplicado na ampla comunidade, mudaria a cultura de formas dramáticas. Por exemplo, pense como o ano de libertação afetaria cada instituição de empréstimo se esse princípio fosse aplicado hoje. Imagine o que ele faria com preços de imóveis, expansão da atividade empresarial, e um exército de outras atividades que temos hoje e não são governadas por esse conceito.

Nossa dificuldade é que imaginar isso é perceber que a introdução da lei bíblica à economia afetará cada indivíduo. Preços de imóveis, por exemplo, entraria em declínio. Assim também muitos outros preços. E dificilmente alguém está psicologicamente preparado para quedas de preço. Temos sido informados que o crescimento de preço indica uma economia em crescimento, quando o oposto é a verdade. O que é necessário são preços em queda.

Poderíamos até imaginar a extensão do ano sabátido ao princípio do jubileu (Lv.25:9-24). Não era possível deserdar uma família da terra. Assim, isso coloca um freio na atividade econômica. A cultura contemporânea não conhece tal recurso de diminuir a economia e proteger as famílias da perda econômica perpétua.

O ano de jubileu criou naturalmente outro “problema” que não se dá bem com o homem moderno. Esse ano seguia um ano sabátido, e era outro ano sabático. Dois consecutivos. Agora o problema de produção é visto de forma grave. Deve haver produção suficiente para sustento por dois anos, somando ao tempo necessário para o ano seguinte começar a plantar e colher novamente. Dois anos “sabáticos” a cada cinqüenta anos. Algo desconhecido em nossos dias.

Assim, a visão de Rushdoony de uma economia baseada na Bíblia está longe de se concretizar. A inicialização de tal visão deve vir dos líderes da igreja e de cristãos que tenham a visão de fazer mudanças em nossas vidas. A aparente dificuldade de instituir leis é freqüentemente a escusa para não implementá-las de forma alguma. Aparente e supostamente, o problema não está conosco, mas com Deus em estabelecer leis impossíveis.

Mas existe um lugar fácil para começar. Há outro aspecto da Bíblia que Rushdoony encoraja que seria um passo na direção correta. É o dízimo. Esse seria um primeiro e de certa forma fácil passo para começar a viver pela Palavra de Deus.

O dízimo tem mais de um aspecto, como Rushdoony argumenta em seu livro, Tithing and Dominion, co-autorado com E. A. Powell. Entre outras coisas, o dízimo era usado para celebrar a bondade de Deus para conosco, bem como para ser uma bênção a outros em necessidade (Ver Dt. 14:22-29).

Aqui reside um ponto importante. O dízimo simboliza a nossa obrigação a Deus com nossas finanças. Dar a Deus a primeira porção do nosso salário indica nosso comprometimento com a Sua Palavra e já começa o processo de mudança em nossas vidas.

Claramente, uma pessoa não pode mudar o mundo. Mas somos chamados a mudar primariamente nossas próprias vidas e governar a nós mesmos de acordo com a Sua Palavra. E se pudermos simplesmente conseguir o suficiente de pessoas fazendo esse comprometimento e mudança inicial, então as outras questões mais difíceis começarão a se esclarecer.

Ian Hodge, AMusA, PhD, é escritor, consultor de negócios e professor de piano. Ele escreveu quatro livros e centenas de ensaios sobre Cristianismo aplicado, muitos deles para a Chalcedon.

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E-mail para contato: felipe@monergismo.com. Traduzido em abril/2008.

Fonte: Faith for All of Life, Nov/Dez 2007, p. 13-14, 32.

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